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Cultura Organizacional Não Se Treina, Se Pratica: O Erro das Empresas em “Implantar Valores”

Este artigo desmonta a lógica falha da “implantação de valores” e propõe um novo paradigma: a cultura como uma prática contínua e viva, sustentada não por treinamentos, mas por storydoing, engajamento cultural genuíno e, acima de tudo, liderança de exemplo. 

Num mundo corporativo obcecado por métricas, eficiência e resultados trimestrais, a cultura organizacional tornou-se praticamente a última fronteira da vantagem competitiva. Não por acaso: de acordo com a Gallup, apenas 23% dos colaboradores globalmente estão totalmente engajados, enquanto 62% mostram indiferença ao próprio trabalho, fenômeno que ficou conhecido como “quiet quitting”. Esse não é um problema de treinamento, mas de prática cultural. Conselhos de administração e diretores falam sobre ela com a reverência de um santo graal, enquanto departamentos de RH são encarregados de “implantá-la” ou “engenheirá-la” como se estivessem instalando um novo software corporativo.


É justamente nesse ponto, no uso quase inocente do verbo “implantar”, que mora o erro primordial, a falácia que consome orçamentos inteiros, frustra líderes e ainda desengaja colaboradores. A cultura não é um módulo pronto para instalar; é um ecossistema vivo, que exige prática diária. Tentar treinar cultura é como tentar ensinar uma árvore a crescer seguindo um manual. O crescimento é orgânico e depende do solo, da luz e do ambiente — elementos que não se controlam, mas que precisam ser cuidadosamente cultivados. 


Este artigo desmonta a lógica falha da “implantação de valores” e propõe um novo paradigma: a cultura como uma prática contínua e viva, sustentada não por treinamentos, mas por storydoing, engajamento cultural genuíno e, acima de tudo, liderança de exemplo. 


A Ilusão da “Implantação”: Porque Treinamentos de Valores Falham 


A cena é comum: uma empresa contrata uma consultoria cara para definir seus “valores corporativos”. Após sessões de brainstorming, surgem palavras como “Transparência”, “Colaboração”, “Inovação” e “Paixão por Resultados”. Estes valores são, então, impressos em cartazes, estampados em canecas e camisetas, e transformados em um treinamento obrigatório de meio dia para todos os colaboradores. Os colaboradoressaem da sala de treinamento, alguns crentes, outros céticos, e retornam aos seus postos de trabalho. Em uma semana, a rotina os absorve. O gestor continua a priorizar o lucro rápido sobre a transparência, os departamentos continuam competindo por recursos, e a inovação é sufocada por processos burocráticos.


O que aconteceu? O treinamento falhou porque a cultura é imune a sermões. Ela é, na definição do antropólogo Ed Schein, um padrão de pressupostos básicos compartilhados que um grupo aprendeu ao resolver seus problemas de adaptação externa e integração interna. Em termos leigos, a cultura é “a forma como as coisas realmente funcionam por aqui”. É o comportamento que é recompensado, tolerado ou punido. (Leia: Paradoxo dos Treinamentos: Por Que Sabemos o Que Fazer, Mas Continuamos Não Fazendo


Quando uma empresa tenta “implantar” valores via treinamento, ela comete vários erros fatais: 


  1. A Dissociação Entre Discurso e Prática: O treinamento vira um evento isolado, um parêntese na realidade corporativa. Os valores pregados no PowerPoint entram em choque direto com os valores praticados no dia a dia. Se o valor é “Colaboração”, mas o sistema de bonificação premia apenas o desempenho individual, a mensagem real é clara: colaborar é bom para o discurso, mas competir é bom para a carreira. 


  2. A Passividade do Aprendizado: Treinamentos colocam o colaborador na posição de receptor passivo. A cultura, por outro lado, exige participação ativa. Ela não é aprendida, mas vivida e experienciada. Ninguém se torna “transparente” assistindo a um vídeo; torna-se transparente praticando a transparência, mesmo quando é difícil. 


  3. A Falta de Contexto Emocional: Valores impressos em paredes são conceitos abstratos. Eles só ganham significado através de histórias e ações reais. Um treinamento sobre “Paixão” é vazio. Ver um líder sênior abandonar uma reunião importante para ajudar um estagiário com um problema complexo – isso é uma lição visceral e inesquecível sobre paixão pelo trabalho em equipe. 


O resultado dessa ilusão é o cinismo. Os colaboradores, que não são ingênuos, percebem a desconexão. Os valores corporativos se tornam, na melhor das hipóteses, uma piada interna e, na pior, um símbolo da hipocrisia da liderança. O “treinamento de cultura”, portanto, não fortalece a cultura; ele a enfraquece, criando uma camada adicional de desconfiança. 


Da Cultura de Papel para a Cultura Viva: O Solo Onde a Prática Floresce 


Se a cultura não se implanta, como ela surge? Ela emerge. Ela é um fenômeno social complexo e adaptativo, semelhante a uma cultura viva. Pense na cultura como o sistema imunológico de uma organização: ela não é um órgão específico, mas uma função que permeia todo o corpo, defendendo-o de ameaças e garantindo sua homeostase. 


Uma cultura viva possui algumas características fundamentais: 


  1. Ela é Orgânica, Não Mecânica: Não pode ser desenhada em um gabinete e replicada mecanicamente. Ela se adapta e evolui com as pessoas, os mercados e os desafios. Uma cultura viva em uma startup de 10 pessoas será diferente da mesma cultura viva quando a empresa tiver 1.000 pessoas. A essência pode permanecer, mas a manifestação muda. 

 

  1. Ela é Prática, Não Teórica: A cultura vive nas micro decisões do dia a dia. No como um gestor conduz uma reunião de feedback. No como uma equipe lida com um erro crítico. No como a empresa celebra uma vitória ou supera uma falha. É na prática repetida que os valores deixam de ser palavras e se tornam hábitos coletivos. (Leia:  Como implementar um Programa de Feedback contínuo para melhorar a produtividade e satisfação dos membros da sua equipe)    

 

  1. Ela é Co-criada, Não Imposta: A cultura não é um decreto da alta gestão. Ela é um acordo tácito e contínuo entre todos os membros da organização. Cada interação, cada conversa de corredor, cada e-mail contribui para a sua formação. A liderança planta as sementes, mas são as ações de todos que regam a floresta. 


Cultivar uma cultura viva exige uma mudança de foco: em vez de perguntar “Como podemos treinar nossos valores?”, as empresas devem perguntar “Que comportamentos práticos refletem nossos valores e como podemos vivê-los coletivamente?” 

Storydoing: A Narrativa que se Escreve com Ações 


Uma das ferramentas mais poderosas para transformar valores abstratos em uma cultura viva é o storydoing. Diferente do storytelling – que é contar uma história – o storydoing é fazer coisas que são tão notáveis que se tornam histórias que se contam sozinhas. 


O storydoing é o antídoto para o discurso vazio. Ele entende que os colaboradores e o mercado não acreditam apenas no que a empresa diz, mas no que ela faz. Uma empresa que prega “O cliente em primeiro lugar” e pratica o storydoing não fará uma campanha publicitária sobre isso. Em vez disso, ela capacitará seu colaborador da linha de frente a tomar uma decisão ousada para resolver um problema do cliente, sem precisar de 15 aprovações hierárquicas. Essa ação se torna uma lenda corporativa. As pessoas contam a história: “Você lembra quando a Maria, da recepção, contratou um helicóptero para entregar uma peça crítica para o cliente? Ela não foi demitida, foi promovida!”. 


Essa história, baseada em uma ação real, carrega em seu DNA todos os valores da empresa: autonomia, confiança, foco no cliente e coragem para inovar. Ela é infinitamente mais poderosa do que mil cartazes. O storydoing cria um repositório de evidências que prova que os valores são reais. Cada ação significativa é um capítulo no livro vivo da cultura organizacional, tornando-a tangível e crível. 


Praticando o Storydoing: 


  1. Celebre as Falhas Corajosas: Em vez de punir erros de tentativas inovadoras, celebre-os publicamente. Mostre que a empresa valoriza o risco calculado, parte essencial da “Inovação”. 


  2. Tome Decisões Difíceis Alinhadas aos Valores: Se um dos valores é “Integridade”, demita um executivo de alto desempenho que a desrespeitou. Esta ação dolorosa manda uma mensagem cultural mais forte do que qualquer treinamento de compliance. 


  3. Crie Rituais Baseados em Ações: Em vez de um “Dia da Colaboração” com dinâmicas forçadas, crie um ritual onde equipes multidisciplinares se reúnam para resolver um problema real de negócio, com recursos e autonomia para implementar a solução. 


O Engajamento Cultural: Do Compliance à Co-criação

 

O engajamento cultural é frequentemente medido por pesquisas de clima que perguntam se os colaboradores “conhecem os valores”. Isso é uma cilada. Conhecer não é engajar-se. O verdadeiro engajamento cultural ocorre quando o indivíduo vê seus próprios valores e propósito pessoal refletidos e amplificados pela cultura da organização. Ele não está apenas dentro da cultura; ele é um agente ativo na sua evolução. 


O engajamento genuíno floresce em um ambiente de prática, não de adestramento. As empresas precisam criar espaços onde os colaboradores possam: 


  1. Interpretar os Valores: Dar autonomia para que as pessoas encontrem suas próprias formas de viver os valores em suas funções específicas. O que “Paixão” significa para um contador? E para um desenvolvedor? 


  2. Desafiar a Cultura: Uma cultura viva é resiliente o suficiente para ser questionada. Canais seguros para feedback e crítica são essenciais. Se os colaboradores têm medo de apontar contradições, a cultura se torna rígida e frágil. 


  3. Co-criar os Rituais: Em vez de impor eventos de integração, permita que as equipes criem seus próprios rituais de celebração e conexão. A propriedade sobre essas práticas aumenta exponencialmente o engajamento. 


Quando o engajamento é autêntico, os colaboradores não defendem a empresa porque são pagos para isso, mas porque acreditam nela. Eles se tornam embaixadores não do discurso, mas da prática. E essa é a forma mais poderosa de marketing e de atração de talentos. 


A Liderança de Exemplo: O Maestro da Prática Cultural 


Toda essa discussão desemboca em um ponto inexorável: a liderança de exemplo. Se a cultura se pratica, os líderes são os praticantes principais. Eles são observados com um microscópio. Cada e-mail, cada decisão, cada reação sob pressão é um sinal cultural potente. 


Um CEO pode discursar por uma hora sobre a importância do “Equilíbrio entre Vida Pessoal e Profissional”, mas se ele envia e-mails às 23h de um sábado e espera respostas imediatas, a mensagem real é: “O trabalho vem primeiro, sempre”. A ação anula o discurso. 


A liderança de exemplo não é sobre ser perfeito; é sobre ser autêntico e consistente. É sobre: 


  • Vulnerabilidade Corajosa: Um líder que admite seu próprio erro em uma reunião geral está praticando “Transparência” de uma forma mais impactante do que qualquer manual. 


  • Consistência nas Pequenas Coisas: Cumprir promessas, ouvir atentamente, dar crédito à equipe. São microações que, repetidas, constroem um arcabouço de confiança e respeito. 


  • Contratar e Promover pelos Valores: A mensagem cultural mais clara que uma empresa envia é quem ela contrata, quem promove e quem deixa sair. Se você promove constantemente os “heróis solitários” e de alta performance tóxica, sua cultura é de competição, não importa o que esteja escrito na parede. 


Os líderes são os guardiões da cultura viva. Eles não a controlam, mas a irrigam com suas ações diárias. Eles são os protagonistas das histórias de storydoing que irão definir, para o bem ou para o mal, a identidade real da organização. (Leia: Liderar na prática: o que as teorias não te contam sobre gerir pessoas.) 


Exemplos Práticos de Culturas Fortes: Netflix e Google 


  • Netflix: A empresa se tornou referência ao estruturar sua cultura em torno da ideia de “liberdade com responsabilidade”. Não se trata de um slogan inspiracional, mas de um sistema vivo que reforça autonomia, maturidade profissional e responsabilização diária. Em vez de treinar comportamentos desejados, a Netflix cria um ambiente que os exige e os sustenta de forma orgânica. 

 

  • Google: Conhecido por colocar segurança psicológica, colaboração e experimentação no centro de sua operação, o Google demonstra como a cultura é moldada por práticas concretas. Rituais, processos internos e mecanismos de tomada de decisão são desenhados para incentivar inovação e autonomia — e não apenas comunicar esses valores. 


Esses exemplos evidenciam que culturas sólidas não são proclamadas; são construídas a partir de decisões consistentes, repetidas e coerentes ao longo do tempo. 


Conclusão: A Jornada da Prática Contínua 


A cultura organizacional não é um destino a ser alcançado com a conclusão de um projeto de “implantação”. É uma jornada contínua, um caminho que se faz caminhando. O erro das empresas em acreditar que se pode treinar a cultura é um erro de paradigma: é tratar um fenômeno humano complexo como um problema técnico simples. 


A mudança requer coragem. Coragem para abandonar os treinamentos superficiais e investir em ações profundas. Coragem para os líderes se exporem e praticarem o que pregam, especialmente quando é difícil. Coragem para confiar nas pessoas e dar a elas a autonomia para co-criar a cultura todos os dias. 


O retorno, no entanto, é incomparável. Uma cultura viva, praticada através de storydoing, que gera engajamento cultural genuíno e é encarnada por uma liderança de exemplo, é o ativo mais duradouro e inimitável de qualquer organização. Ela atrai os melhores talentos, inspira lealdade nos clientes e navega com agilidade e resiliência em um mundo em constante mudança. No final, a grande lição é esta: pare de tentar implantar a cultura e comece a praticá-la. Porque, no palco da realidade corporativa, as ações sempre falam mais alto, e por mais tempo, do que as palavras. 


E é exatamente nesse novo paradigma — o paradigma da cultura que se pratica, não da cultura que se treina — que nasce o Programa de Formação de Mentores da Better: uma jornada desenhada para capacitar profissionais que serão guardiões dessa prática diária. Uma formação que desenvolve mentores capazes de fortalecer o desenvolvimento contínuo, sustentar comportamentos alinhados aos valores e impulsionar um ambiente onde a cultura deixa de ser discurso e se torna evidência cotidiana. Em vez de tentar “implantar” cultura, a Better prepara pessoas para vivê-la — com consistência, propósito e impacto real no desempenho. 

 

 

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